MOMENTO SAÚDE
Entrevistas: Dr Luciano Garcia dos Passos- pauta Síndromes respiratórias no inverno (gripes e resfriados) e Coqueluche. 19/3/2025
Todos os anos, com a aproximação do inverno, começamos a nos preocupar em evitar as doenças respiratórias que popularmente chamamos de gripe. Apesar de usarmos esse termo de forma genérica para nos referirmos a sintomas como nariz entupido, espirros e dor de cabeça, a gripe e os resfriados são causados por vírus diferentes e apresentam algumas características que permitem a sua diferenciação.
Enquanto a maioria das pessoas é infectada algumas vezes durante o ano com o vírus do resfriado, a gripe ocorre com menos frequência, manifestando-se, por exemplo, uma vez em alguns anos.
GRIPE:
E causada pelo vírus influenza. Seus sintomas geralmente aparecem de forma repentina, com febre, vermelhidão no rosto, dores no corpo e cansaço. Entre o segundo e o quarto dias os sintomas do corpo tendem a diminuir enquanto os sintomas respiratórios aumentam, aparecendo com frequência uma tosse seca.
Como no resfriado, na gripe a presença de secreções nasais e espirros é comum.
RESFRIADO:
É causado na maioria das vezes por rinovírus. Seus primeiros sinais costumam ser coceira no nariz ou irritação na garganta, os quais são seguidos após algumas horas por espirros e secreções nasais. A congestão nasal também é comum nos resfriados, porém, ao contrário da gripe, a maioria dos adultos e crianças não apresenta febre ou apenas febre baixa.
O mal-estar provocado por gripes e resfriados é o principal motivo que os brasileiros alegam para se ausentar do trabalho.
O levantamento mostrou que 17,8% dos brasileiros faltaram ao trabalho ou deixaram de estudar pelo menos um dia por conta de gripe ou resfriado.
TRATAMENTO:
Ainda não existem medicamentos que tenham demonstrado bons resultados no combate aos vírus da gripe e do resfriado, por isso, o tratamento é direcionado ao alívio dos sintomas. Os principais medicamentos sintomáticos utilizados são os analgésicos e antitérmicos, que aliviam a dor e a febre.
TAMIFLU
Mas Atenção: Mesmo medicamentos que podem ser comprados sem necessidade de receita médica podem provocar reações indesejadas. Importante que o profissional de saúde poderá oriente o medicamento mais apropriado para cada caso.
COMPLICAÇÕES
Alguns casos podem evoluir com complicações, especialmente em indivíduos com doença crônica, idosos e crianças menores de 2 anos, o que acarreta elevados níveis de morbimortalidade. As complicações mais comuns são:
• sinusite;
• otite;
• desidratação;
• piora das doenças crônicas;
• pneumonia bacteriana e por outros vírus;
A principal complicação são as pneumonias, responsáveis por um grande número de internações hospitalares no país.
TRATAMENTO
De acordo com o Protocolo de Tratamento de Influenza 2017, do Ministério da Saúde, o uso do antiviral Fosfato de Oseltamivir está indicado para todos os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e casos de Síndrome Gripal (SG) com condições ou fatores de risco para complicações. O início do tratamento deve ocorrer preferencialmente nas primeiras 48 horas após o início dos sintomas.
Condições e fatores de risco para complicações, com indicação de tratamento:
• Grávidas em qualquer idade gestacional;
• Puérperas até duas semanas após o parto (incluindo as que tiveram aborto ou perda fetal);
• Adultos ≥ 60 anos;
• Crianças < 5 anos (sendo que o maior risco de hospitalização é em menores de 2 anos, especialmente as menores de 6 meses com maior taxa de mortalidade);
• População indígena aldeada ou com dificuldade de acesso;
• Pneumopatias (incluindo asma);
• Cardiovasculopatias (excluindo hipertensão arterial sistêmica);
• Nefropatias;
• Hepatopatias;
• Doenças hematológicas (incluindo anemia falciforme);
• Distúrbios metabólicos (incluindo diabetes mellitus);
• Transtornos neurológicos que podem comprometer a função respiratória ou aumentar o risco de aspiração (disfunção cognitiva, lesões medulares, epilepsia, paralisia cerebral, Síndrome de Down, atraso de desenvolvimento, AVC ou doenças neuromusculares);
• Imunossupressão (incluindo medicamentosa ou pelo vírus da imunodeficiência humana);
• Obesidade (Índice de Massa Corporal - IMC ≥ 40 em adultos); Indivíduos menores de 19 anos de idade em uso prolongado com ácido acetilsalicílico (risco de Síndrome de Reye).
PREVENÇÃO
A vacina é a melhor maneira de se evitar a gripe e suas complicações. Todos os anos é necessário receber uma nova dose, já que sua composição é alterada de acordo com o tipo de Vírus mais provável de se disseminar. A vacina previne aproximadamente 70-90%dos casos de gripe, mas não protege contra outras infecções respiratórias como o resfriado. O efeito preventivo da vacina é observado cerca de duas semanas após sua administração, por isso a aplicação da vacina deve ser feita antes do inverno, época em que ocorrem os maiores índices de infecção. Como o vírus utilizado na vacina foi inativado em laboratório não é possível que a vacinação provoque gripe.
As reações adversas que podem ocorrer costumam ser leves, como: dor no local da injeção, febre e mal-estar que duram um ou dois dias. Há evidências de que quem recebe a vacina todos os anos desenvolve maior resistência à doença, por isso todas as pessoas que tiveram acesso à vacina devem recebê-la anualmente.
Para o resfriado ainda não há vacina disponível.
Vacina em > 60 anos, 6 meses até < 6 anos, gestantes, indígenas, professores, portadores de doenças crônicas e profissionais de saúde.
Além da vacinação orienta-se a adoção de outras medidas gerais de prevenção para toda a população. Medidas estas, comprovadamente eficazes na redução do risco de adquirir ou transmitir doenças respiratórias, especialmente as de grande infectividade, como vírus da gripe:
PREVENÇÃO
• Lave as mãos com água e sabão ou use álcool em gel, principalmente antes de consumir algum alimento;
• Utilize lenço descartável para higiene nasal;
• Cubra o nariz e boca ao espirrar ou tossir;
• Evite tocar mucosas de olhos, nariz e boca;
• Não compartilhe objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;
• Mantenha os ambientes bem ventilados;
• Evite contato próximo a pessoas que apresentem sinais ou sintomas de gripe;
• Evite sair de casa em período de transmissão da doença;
• Evite aglomerações e ambientes fechados (procurar manter os ambientes ventilados);
• Adote hábitos saudáveis, como alimentação balanceada e ingestão de líquidos;
COQUELUCHE
Nos últimos dois anos, países da Europa e da Ásia registraram aumento nos casos de coqueluche. A doença infecciosa é de alta transmissibilidade, mas é controlada no Brasil graças à vacinação. As vacinas contra coqueluche estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Diante do cenário global, o Ministério da Saúde divulgou uma Nota Técnica com recomendações de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica da doença no Brasil.
Entre as ações, a pasta inclui alerta aos profissionais de saúde da área assistencial, investigação de contatos de casos confirmados, oferta de tratamento oportuno, além de ampliação do uso da vacina dTpa para profissionais de saúde que atuam em atendimentos de ginecologia, obstetrícia, pediatria, além de doulas e trabalhadores de berçários e creches com crianças até 4 anos.
Dados nacionais de 2019 a 2024 mostram que as crianças menores de um ano de vida representaram mais de 52% dos casos de coqueluche. Em seguida crianças entre 1 e 4 anos, com cerca de 22%. Essa é uma doença de notificação compulsória. Foram registrados 3,1 mil casos de coqueluche em 2015 no país. De lá para cá, observou-se uma diminuição do número de casos confirmados: em 2023 foram 214 casos e até abril de 2024 foram 31.
É fundamental manter a vacinação em dia e procurar uma unidade de saúde para receber o diagnóstico e tratamento adequados, assim que surgirem os primeiros sinais e sintomas.
A coqueluche é uma infecção respiratória, transmissível e causada por bactéria (Bordetella Pertussis). Está presente em todo o mundo. Sua principal característica são crises de tosse seca. Pode atingir, também, traqueia e brônquios.
A transmissão da coqueluche ocorre, principalmente, pelo contato com a pessoa doente, por meio de gotículas eliminadas por tosse, espirro ou até mesmo ao falar. Em alguns casos, a transmissão pode ocorrer por objetos recentemente contaminados com secreções de pessoas doentes. Isso é pouco frequente, porque é difícil o agente causador da doença sobreviver fora do corpo humano, mas não é impossível. O período de incubação da bactéria, ou seja, o tempo que os sintomas começam a aparecer desde o momento da infecção, é de, em média, 5 a 10 dias podendo variar de 4 a 21 dias e, raramente, até 42 dias.
A evolução se dá em três fases:
Fase inicial (catarral)
Começa como um resfriado comum, com sintomas leves como febre baixa, mal-estar geral, coriza e tosse seca. Gradualmente, o quadro vai evoluindo para crises de tosse mais intensa.
Fase de tosse intensa (paroxística)
Geralmente é afebril ou com febre baixa, mas em alguns casos, ocorrem vários picos de febre no decorrer do dia. A tosse se torna muito forte e incontrolável, com crises súbitas e rápidas que podem causar vômitos. Durante essas crises a pessoa pode ter dificuldade para inspirar, apresenta rosto vermelho (congestão facial) ou azulado (cianose) e, às vezes, fazer um som agudo ao inspirar (guincho).
1. Essa fase pode durar de duas a seis semanas.
Fase de recuperação (convalescença)
A tosse começa a diminuir em frequência e intensidade, mas pode persistir por duas a seis semanas ou por até três meses @nfecções respiratórias de outra natureza, durante essa fase, podem fazer a tosse intensa (paroxismos) voltar temporariamente.
- Atenção especial para: - Bebês menores de 1 (um) de vida, principalmente aqueles com até 6 meses:
São mais propensos a formas graves da doença, muitas vezes letais, que podem incluir crises de tosse, dificuldade para respirar, sudoreses e vômitos. Também pode ocorrer episódios de apneia, parada respiratória, convulsões e desidratação, decorrentes dos episódios repetidos de vômitos. O cuidado adequado desses bebês exige hospitalização, isolamento, vigilância permanente e procedimentos especializados.
Pessoas com condições clínicas pré-existentes: que possam ser exacerbadas pela coqueluche, como por exemplo, imunocomprometidas, indivíduos com asma moderada ou grava e outras pessoas em condições semelhantes.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da coqueluche em estágios iniciais é difícil, uma vez que os sintomas podem parecer como resfriado ou até mesmo outras doenças respiratórias. A tosse seca é um forte indicativo da coqueluche, mas para confirmar o diagnóstico o médico pode pedir os seguintes exames: Coleta de material de nasofaringe para cultura; PCR em tempo real. Como exames complementares, podem ser realizados hemograma e raio-x de tórax.
Diagnóstico Laboratorial: realizado mediante o isolamento da B. pertussis pela cultura de material colhido de nasorofaringe, com técnica adequada ou pela técnica de reação em cadeia de polimerase (PCR) em tempo real. A coleta da secreção da nasofaringe deve ser realizada antes do início da antibioticoterapia ou, no máximo, até três (3) dias após seu início.
A coleta do espécime clínico deve ser realizada antes do início da antibioticoterapia ou, no máximo, até 03 dias após seu início.
COMPLICAÇÕES
A maioria das pessoas consegue se recuperar da coqueluche sem sequelas e maiores complicações. No entanto, nas formas mais graves podem ocorrer alguns quadros mais severos, como Hérnias Abdominais. Em crianças, especialmente as menores de seis meses, as complicações são mais graves e podem incluir, por exemplo:
Infecções de ouvido
Pneumonia
Parada Respiratória
Desidratação
Convulsão
Lesão Cerebral
Prevenção
A vacinação é o principal meio de prevenção da coqueluche. O Sistema único de Saúde (SUS) também oferta a vacina recomendada a gestantes (a cada gestação), todos os profissionais da saúde e parteiras tradicionais. Ainda, está disponível para estagiários da área da saúde que atuam em berçários, maternidades, unidades de internação neonatal, atendendo recém-nascidos.
A imunização é administrada com a pentavalente, esquema vacinal composto por três doses (aos 2, 4 e 6 meses de vida), seguidas de reforços com a vacina DTP aos 15 meses e aos 4 anos de idade.