PUBLICADO 13/10/2025
Brasil tem desafios para reduzir desperdício de alimentos enquanto celebra saída do Mapa da Fome
Em julho, o Brasil comemorou a sua saída do Mapa da Fome, após a insegurança alimentar severa cair 85% no país em 2023.
A conquista foi celebrada intensamente pelo governo e por membros da sociedade civil – e deve ser um dos focos da participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Fórum Mundial da Alimentação, em Roma (Itália), na segunda-feira (13/10). O evento celebra os 80 anos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e reunirá autoridades de diferentes países.
A expectativa é que Lula anuncie os avanços no país e reúna mais apoio em torno da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, um tratado multilateral elaborado pelo Brasil e adotado em 2024 pelos membros do G20.
Em Roma, o presidente participa da cerimônia de abertura do Fórum e, na sequência, da reunião do Conselho de Campeões da Aliança. Lula também tem uma reunião bilateral marcada com o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.
Especialistas afirmam que o progresso brasileiro no combate à fome deve ser visto como algo positivo, mas ressaltam que o país ainda tem muitos desafios a serem superados na área.
Um dos obstáculos é o desperdício alimentar, um tema que está profundamente conectado à subnutrição e acesso justo aos alimentos, mas que por vezes fica de fora do debate público ou da lista de prioridades, apontam os analistas ouvidos pela BBC Brasil.
Para Maria Siqueira, cofundadora e diretora de políticas públicas no movimento Pacto Contra a Fome, o cenário de desperdício de alimentos revela uma “incoerência gravíssima” no Brasil.
“Ao mesmo tempo em que temos uma capacidade de produção que seria suficiente para alimentar toda a população, desperdiçamos parte muito importante dela”, diz.
Segundo a ONU, entre 2022-2024, 28,5 milhões de pessoas estavam em condição de insegurança alimentar no Brasil. Ao mesmo tempo, o país está nas primeiras posições do ranking global de nações produtoras de alimentos, com cerca de 1,1 bilhão de toneladas de produção agropecuária ao ano.
"Tanto o desperdício quanto a fome e a insegurança alimentar são problemas derivados da forma como organizamos nosso modelo de produção, distribuição e garantia do acesso aos alimentos, que no fim das contas fazem com que a comida seja tratada como mercadoria e não como um direito humano", opina Siqueira.
Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios, afirma ainda que o tema deve ser levado em conta não apenas no contexto da luta contra a subnutrição, mas também quando se discute proteção ao meio ambiente.
O país produz cerca de 800 milhões de toneladas de resíduos orgânicos por ano, segundo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, e menos de 2% desse volume é destinado corretamente. Quando descartados em aterros sanitários ou lixões, os orgânicos emitem gases do efeito estufa e geram chorume tóxico, que contaminam o solo, a água e toda a atmosfera.
"O setor de resíduos é o segundo mais poluente em metano no Brasil, atrás apenas da agropecuária", diz Porpino. "E o metano tem um potencial de aquecimento global 28 vezes maior do que o gás carbônico."
E apesar do Brasil ter adotado o compromisso de reduzir entre 59% e 67% das emissões até 2035, a redução de perdas e desperdício de alimentos não é uma das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês, ou como são chamadas as metas climáticas assumidas por cada país internacionalmente), queixa-se o especialista.
"Criar metas específicas poderia dar mais visibilidade ao tema e gerar mais ações concretas.", afirma o pesquisador da Embrapa.
O combate ao desperdício de alimentos faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que propõe reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial nos níveis de varejo e do consumidor até 2030.
Em 2022, foram descartados no mundo 1,05 bilhão de toneladas de alimentos, segundo o Índice Global do Desperdício de Alimentos 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Também de acordo com a PNUMA, o custo da perda e do desperdício de alimentos na economia global é estimado em cerca de US$ 1 trilhão.