PUBLICADO 20/01/2026
Carnes, arroz, soja e café: os setores beneficiados com o acordo Mercosul-UE
Redução de tarifas de forma gradual deve ampliar a presença de produtos brasileiros no mercado europeu
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia deve ampliar a presença de produtos brasileiros no mercado europeu, por meio da redução de tarifas e da abertura comercial entre os blocos.
Foi assinado neste sábado, 17, em Assunção, no Paraguai, país que ocupa a presidência rotativa do Mercosul. O texto ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado pelos congressos nacionais para entrar em vigor.
Eliminação de tarifas será de forma gradual
Na maior parte dos setores de bens e serviços a eliminação das tarifas se dará de forma gradual:
Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
Agro é o principal beneficiado
O setor agrícola e agropecuário será um principais beneficiados pelo acordo. Pelo lado do Mercosul, 31% das alíquotas do setor serão zeradas imediatamente com a entrada em vigor do tratado. Já na União Europeia, 39% das linhas tarifárias agropecuárias terão tarifa eliminada de forma imediata.
Carnes concentram maiores ganhos
As carnes estão no centro das oportunidades abertas pelo acordo.
Carne bovina: cota de 99 mil toneladas com tarifa reduzida de 7,5% e eliminação imediata da tarifa da Cota Hilton, que estabelece um volume limite de exportação de cortes bovinos de alta qualidade.
Carne de aves: cota de 180 mil toneladas com tarifa zero.
Carne suína: cota de 25 mil toneladas, com tarifa intraquota reduzida.
A entrada de carnes brasileiras mais competitivas no mercado europeu explica a oposição da França ao acordo, por temor de prejuízos aos produtores locais. Em 2025, os embarques de carne bovina do Brasil para a União Europeia somaram US$ 820,15 milhões nos 11 primeiros meses do ano, alta de 83,2% em relação a 2024.
Arroz, grãos e impacto no Sul do país
Outro destaque é o arroz, com cota de 60 mil toneladas e tarifa zero, beneficiando especialmente o Rio Grande do Sul, maior produtor nacional. Grãos como milho e sorgo também terão acesso ampliado ao mercado europeu, com uma cota conjunta de até 1 milhão de toneladas livre de impostos.
Açúcar, etanol e mel
O acordo também favorece produtos tradicionais da pauta exportadora brasileira:
Açúcar: cota de 180 mil toneladas com tarifa zero;
Etanol: 450 mil toneladas para uso industrial sem tarifa e volumes adicionais com alíquota reduzida;
Mel: cota de 45 mil toneladas isenta de impostos.
Café, soja e fumo mantêm protagonismo
A União Europeia segue como o segundo principal destino do agronegócio brasileiro. Em 2025, o bloco importou US$ 25,21 bilhões do setor. Foi o maior comprador de café verde, farelo de soja e fumo não manufaturado.
O café em grão, responsável por quase a totalidade das vendas ao mercado europeu, já entra sem tarifa. Com o acordo, as alíquotas sobre o café solúvel e o torrado e moído serão eliminadas ao longo de quatro anos, ampliando o espaço para produtos de maior valor agregado.
Tempo de adaptação
As cotas previstas no acordo funcionam como um período de adaptação para os setores mais sensíveis, sobretudo na União Europeia. Em vez de uma abertura imediata e irrestrita do mercado, o modelo permite que apenas volumes determinados de produtos entrem com tarifas reduzidas ou zeradas, enquanto o excedente segue sujeito a impostos mais altos.
Esse formato busca evitar impactos abruptos sobre produtores locais. Ao longo dos anos, as cotas tendem a crescer e as tarifas a cair gradualmente, criando um ambiente de transição que permite ajustes na produção e investimentos em competitividade.
Aumento da competitividade
Para o professor de Relações Internacionais da UniRitter, João Gabriel Burmann, o acordo aumenta a competitividade dos produtos brasileiros ao ampliar cotas e reduzir tarifas, ao mesmo tempo em que exige adequação a padrões técnicos, sanitários e ambientais rigorosos.
Segundo ele, o impacto não será imediato, já que a liberalização ocorre de forma gradual, com prazos maiores para setores mais sensíveis.
O que pode ficar mais barato no Brasil
Do lado do consumidor brasileiro, o acordo tende a reduzir, ao longo do tempo, os preços de produtos europeus como chocolates, azeites, massas, automóveis e autopeças, conforme as tarifas de importação forem eliminadas de forma progressiva.